De onde vem a forma como nos vemos: a autoestima começa na infância

A voz que nos critica por dentro foi, um dia, aprendida.

Porque é que algumas pessoas, perante o mesmo erro, se encolhem em autocrítica feroz enquanto outras seguem em frente? Grande parte da resposta está mais atrás do que pensamos — na forma como aprendemos, muito cedo, a olhar para nós próprios.

A criança como espelho

O primeiro espelho de uma criança é o rosto de quem cuida dela.

A criança constrói a ideia de quem é a partir do que vê reflectido nesse rosto. Não a partir do que lhe dizem em teoria, mas do que sente nas reacções do dia a dia — no tom de voz, no olhar, na forma como é (ou não é) ouvida. Se o reflexo que recebe é de aceitação e valor, interioriza "sou digno de amor"; se é de crítica, indiferença ou impaciência constante, pode interiorizar "há algo de errado comigo".

Essa imagem inicial não desaparece com a idade. Torna-se a lente através da qual a pessoa adulta interpreta tudo o resto.

Sentir-se amado não é o mesmo que ser amado

Um dos pontos mais subtis é este: não basta amar uma criança — é preciso que ela se sinta amada.

Muitos pais amam profundamente os filhos e, ainda assim, por mil razões (stress, exigência, dificuldade em expressar afecto, as suas próprias feridas), a mensagem que chega pode ser outra. Isto explica porque é que tantos adultos competentes e bem-sucedidos carregam, mesmo assim, uma sensação persistente de não serem suficientes: a lente formou-se cedo, e o sucesso de hoje não a corrige automaticamente.

O que isto explica na vida adulta

Compreender esta origem ajuda a dar sentido a padrões que de outra forma parecem irracionais:

  • A autocrítica que não bate certo com os resultados reais.

  • A dificuldade em receber elogios ou afecto.

  • A sensação de que se vale pelo que se faz, e não pelo que se é.

  • O perfeccionismo como tentativa de "merecer" finalmente aprovação.

Nenhum destes padrões é um defeito de carácter. São o eco de uma lente que se formou quando ainda não tínhamos como escolher.

A boa notícia: a lente pode mudar

Aqui está o essencial — e o mais esperançoso. A autoimagem não é um destino gravado em pedra. O que se aprendeu pode ser revisto.

Em adulto, é possível reconhecer de onde vem aquela voz interna, perceber que ela reflecte experiências antigas e não a verdade sobre quem somos, e construir, aos poucos, uma relação mais compassiva e mais justa connosco próprios.

Esse é, muitas vezes, um dos trabalhos mais transformadores em psicoterapia: não culpar o passado nem os pais, mas compreender a origem da nossa autoimagem para deixar de viver refém dela.

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